domingo, 10 de novembro de 2013

TRIBUNA LIVRE

OTELO E SANT’IAGO
PRAZO DADO

― Preciso falar-lhe amanhã, sem falta; escolha o lugar e diga-me.

Creio que José Dias achou desusado este meu falar. O tom não me sairia tão imperativo como eu receiava, mas as palavras o eram, e o não interrogar, não pedir, não hesitar, como era proprio da creança e do meu estylo habitual, certamente lhe deu ideia de uma pessoa nova e de uma nova situação. Foi no corredor, quando iamos para o chá; José Dias vinha andando cheio da leitura de Walter Scott que fizera a minha mãe e a prima Justina. Lia cantado e compassado. Os castellos e os parques saíam maiores da bocca delle, os lagos tinham mais agua e a “abobada celeste” contava alguns milhares mais de estrellas centellhantes. Nos dialogos, alternava o som das vozes, que eram levemente grossas ou finas, conforme o sexo dos interlocutores, e reproduziam com moderação a ternura e a colera.

Ao despedir-se de mim, na varanda, disse-me elle:

― Amanhã, na rua. Tenho umas compras que fazer, você póde ir commigo, pedirei a mamãe. É dia de licção?

― A licção foi hoje.

― Perfeitamente. Não lhe pergunto o que é; affirmo desde já que é materia grave e pura.

― Sim, senhor.

― Até amanhã.

Fez-se tudo o melhor possível. Houve só uma alteração: minha mãe achou o dia quente e não consentiu que eu fosse a pé; entramos no omnibus, à porta de casa.

― Não importa, disse-me José Dias; podemos apear-nos à porta do Passeio Público.


Machado de Assis
Dom Casmurro
H. Garnier, livreiro-editor.
Rio de Janeiro / Pariz.
1ª edição.