Tornava a adormecer, e às vezes não despertava senão
por um breve instante, mas o suficiente para ouvir os estalidos orgânicos das
madeiras, para abrir os olhos e fixar o caleidoscópio da escuridão e saborear,
graças a um lampejo momentâneo de consciência, o sono em que estavam
mergulhados os móveis, o quarto, aquele todo do qual eu não era mais que uma
parte mínima e em cuja insensibilidade logo tornava a integrar-me. Ou então,
enquanto dormia, retrocedera sem esforço a uma época para sempre transcorrida
de minha primitiva existência, tornando a encontrar alguns de meus terrores
infantis, como o medo de que meu tio-avô me puxasse os cachos e que se
dissipara no dia ― início para mim de uma era nova ― em que mos haviam cortado. Tal
acontecimento, eu o esquecera durante o sono, mas sua lembrança voltava-me
assim que conseguia despertar para fugir às mãos do meu tio-avô; em todo caso,
como medida de precaução, envolvia completamente a cabeça com o travesseiro
antes de regressar ao mundo dos sonhos.
Marcel Proust
em busca do tempo perdido
volume I
no caminho de swann
tradução de mário quintana
Globo. São Paulo, SP. 3ª edição. 5ª reimpressão.
2009.