DE SEUS BAGOS VIM
Nasci de Fininha e de seu
Naldo. Fui seu segundo filho. O primeiro, Dirceu, morreu de sarampo aos três
anos. O terceiro, Mário, anda por aí. É o melhor irmão do mundo. Encontrei nos
guardados de mamãe a primeira carta que ela recebeu de meu pai.
Montes Claros, 24 de outubro
de 1920
Exma. Sra. D. Fininha
Silveira
Cumprimento-a
respeitosamente.
Permita-me que comece esta
pedindo-lhe desculpas pela grande ousadia que tenho neste momento em
escrever-lhe, mas é que mesmo indirectamente és a causa principal da dúvida e
da incerteza que paira em meu espírito. Embora nunca tenhamos fallado sobre
amor, é certo que entre nós, ou pelo menos da minha parte, existe para com a
Sra. uma verdadeira sympathia, e como consigo não sei se dar-se-á o mesmo,
venho pedir-lhe para que termos claros e
precisos se deffina a meu respeito. Pensa a Sra. em casar-se comigo?... E
se pensa assim, é unicamente amizade e affeição que lhe faz pensar desta
maneira?... Perdoe, D. Fininha, que lhe faça estas perguntas, mas é que a
incerteza em que tenho vivido até agora não pode continuar, por isto espero e
conto certo que me responderás [...]
Como era belo o amor de
antigamente. Respeitoso, solene, até tolo. Inocente. Coitado de mim, que nunca
alcancei essas grandezas de coração. No meu tempo ele já era uma víscera que se
podia cortar, emendar com plástico e até substituir por um coração de porco. O
amor de papai era também fulgurante. Fui o segundo filho e nasci em outubro de
1922. Em dois anos eles tinham casado e gerado dois filhos.
Darcy Ribeiro
Confissões
Companhia das Letras. São
Paulo, SP.
1ª reimpressão. 1997.