terça-feira, 12 de novembro de 2013

GENTE MUITO APTA PARA O REINO DO CÉU


DE SEUS BAGOS VIM

Nasci de Fininha e de seu Naldo. Fui seu segundo filho. O primeiro, Dirceu, morreu de sarampo aos três anos. O terceiro, Mário, anda por aí. É o melhor irmão do mundo. Encontrei nos guardados de mamãe a primeira carta que ela recebeu de meu pai.

Montes Claros, 24 de outubro de 1920

Exma. Sra. D. Fininha Silveira

Cumprimento-a respeitosamente.

Permita-me que comece esta pedindo-lhe desculpas pela grande ousadia que tenho neste momento em escrever-lhe, mas é que mesmo indirectamente és a causa principal da dúvida e da incerteza que paira em meu espírito. Embora nunca tenhamos fallado sobre amor, é certo que entre nós, ou pelo menos da minha parte, existe para com a Sra. uma verdadeira sympathia, e como consigo não sei se dar-se-á o mesmo, venho pedir-lhe para que termos claros e precisos se deffina a meu respeito. Pensa a Sra. em casar-se comigo?... E se pensa assim, é unicamente amizade e affeição que lhe faz pensar desta maneira?... Perdoe, D. Fininha, que lhe faça estas perguntas, mas é que a incerteza em que tenho vivido até agora não pode continuar, por isto espero e conto certo que me responderás [...]

Como era belo o amor de antigamente. Respeitoso, solene, até tolo. Inocente. Coitado de mim, que nunca alcancei essas grandezas de coração. No meu tempo ele já era uma víscera que se podia cortar, emendar com plástico e até substituir por um coração de porco. O amor de papai era também fulgurante. Fui o segundo filho e nasci em outubro de 1922. Em dois anos eles tinham casado e gerado dois filhos.


Darcy Ribeiro
Confissões
Companhia das Letras. São Paulo, SP.
1ª reimpressão. 1997.