EMANUEL E FEDERICO
Que quem foi que tossiu, lá fora da porta do terreiro? O velho
Camilo. Leonísia perguntou por quê que ele não entrava: há de entrasse pra
dentro, vir beber um coité de chá de cagaiteira, com as pessoas. Leonísia
prestava gentil a caridade ― mesmo com tantos cansaços do dia, ela por suas
boas mãos tinha botado água na bacia, tratou do machucado no pé dele Manuelzão,
sem o desdém. À mente, a mãe de Manuelzão reconhecia o tamanho da alma de toda
pessoa, no disparo de um olhar. Sobre Leonísia, ela redisse: ― “Esta procede
produzido de si, certa no esquecível e no lembrável...” ―; e não dosou o
bem-querer, que era para uma neta, para uma filha. A ser ― e o que era que ela
estudou, do Adelço? Nada. Lei que não dava opinião, nunca, em assunto de homem.
Às entre-vezes, semelhava ela tivesse pena do Adelço, quem sabe por ser
trabalhador na tristeza. Todo modo, o Adelço condizia qualquer obrigação, na
coragem acostumada. Mas ele obscurecia na gente toda novidade de animação, as
influências, toda graça de entusiasmos. A mãe de Manuelzão, se viva, também
havia de ter falado com o velho Camilo para entrar, vir ouvir cá dentro. A
noite seroava fria, até fazia mal, na idade dele. Velho Camilo agradecia,
estava a cômodo, sentado no toco, na boca da escuridão. Só um menos apartado,
feito os pobres cães cachorros, que se deitam, sastisfeitos, perto das pessoas.
Não adiantava encalcar, com ele porfiar. Mesmo permanecia ali porque gostava de
Joana Xaviel. Gostava, de amor? A Leonísia tinha falado bondosa, mas a sério,
seu respeito. Devia de ser via disso que a Joana Xaviel não apôs palavra. Às
artes, começava outra estória:
― “O seguinte é este:...” Aí, uma vez, era um homem doado de
rico, feliz de rico, mesmo, com extraordinárias fazendas-de-gado. Tinha um
amigo, que era vaqueiro, muito pobre, pobre, pobre. A mulher do vaqueiro se
chamava a Destemida...
Sensato normal não havia de ser ― ponto que o sono regateava de
não vir ― que então ele Manuelzão imaginasse só na festa? Na idéia da festa ele
não estava navegado, a tudo? Quieto, devia de aproveitar para repensar mais os
arranjos, escogitando meios. Verdade, que bem não carecia ― cada apreparo
terminara disposto, cada providência em ordem. Antes ela mesmo mesma já tinha
rompido em movimento, o rojão de suas partes se sucedendo: crente que a gente
já estava no meio da festa festejada. Amanhã, raiava o diazinho, a festa recomeçava
mais... Mas, então, o lucro seria de não esperdiçar a espertina destas pequenas
horas, e deixar de ouvir aquelas estórias ― o vago de palavras, o sabido de não
existido, invenções. Tomar a ocasião para presumir os benefícios do serviço do
campo, o negócio de sempre. A boiada que ia sair. À Santa-Lua. Não, não
carecia. Deixava para depois, quando a festa estiasse. Aí, resolvia. Ah, não
tinha preguiça de si ― mas também não assumia receio de ninguém! Era homem de
ponto. Só o trunfo de rebentar as durezas ― não pedia retreta de vadiação.
Agora mesmo, não era por querido querer que estava ali escutando as estórias.
Mais essas vinham, por si, feito no avanço do chapadão o menor vento brisêia. A
bem ele tinha decidido o cálculo de botar o pé jazendo na cama, ali, para
ajudar que o machucado melhorasse. Se não, estaria em pé, sobre-rondando,
vigiando o povo todo se acomodar. Só que o sono se arregaçava. Se furtivava o
sono, e no lugar dele manavam as negaças de voz daquela mulher Joana Xaviel, o
urdume das estórias. As estórias ― tinham amarugem e docice. A gente escutava ,
se esquecia de coisas que não sabia.
João Guimarães Rosa
Uma Estória de Amor
(Festa de Manuelzão)
em Corpo de Baile, 1º vol.
José Olympio. Rio de Janeiro.
1ª edição. 1956.