terça-feira, 12 de novembro de 2013

TRIBUNA LIVRE


EMANUEL E FEDERICO

Que quem foi que tossiu, lá fora da porta do terreiro? O velho Camilo. Leonísia perguntou por quê que ele não entrava: há de entrasse pra dentro, vir beber um coité de chá de cagaiteira, com as pessoas. Leonísia prestava gentil a caridade ― mesmo com tantos cansaços do dia, ela por suas boas mãos tinha botado água na bacia, tratou do machucado no pé dele Manuelzão, sem o desdém. À mente, a mãe de Manuelzão reconhecia o tamanho da alma de toda pessoa, no disparo de um olhar. Sobre Leonísia, ela redisse: ― “Esta procede produzido de si, certa no esquecível e no lembrável...” ―; e não dosou o bem-querer, que era para uma neta, para uma filha. A ser ― e o que era que ela estudou, do Adelço? Nada. Lei que não dava opinião, nunca, em assunto de homem. Às entre-vezes, semelhava ela tivesse pena do Adelço, quem sabe por ser trabalhador na tristeza. Todo modo, o Adelço condizia qualquer obrigação, na coragem acostumada. Mas ele obscurecia na gente toda novidade de animação, as influências, toda graça de entusiasmos. A mãe de Manuelzão, se viva, também havia de ter falado com o velho Camilo para entrar, vir ouvir cá dentro. A noite seroava fria, até fazia mal, na idade dele. Velho Camilo agradecia, estava a cômodo, sentado no toco, na boca da escuridão. Só um menos apartado, feito os pobres cães cachorros, que se deitam, sastisfeitos, perto das pessoas. Não adiantava encalcar, com ele porfiar. Mesmo permanecia ali porque gostava de Joana Xaviel. Gostava, de amor? A Leonísia tinha falado bondosa, mas a sério, seu respeito. Devia de ser via disso que a Joana Xaviel não apôs palavra. Às artes, começava outra estória:

― “O seguinte é este:...” Aí, uma vez, era um homem doado de rico, feliz de rico, mesmo, com extraordinárias fazendas-de-gado. Tinha um amigo, que era vaqueiro, muito pobre, pobre, pobre. A mulher do vaqueiro se chamava a Destemida...

Sensato normal não havia de ser ― ponto que o sono regateava de não vir ― que então ele Manuelzão imaginasse só na festa? Na idéia da festa ele não estava navegado, a tudo? Quieto, devia de aproveitar para repensar mais os arranjos, escogitando meios. Verdade, que bem não carecia ― cada apreparo terminara disposto, cada providência em ordem. Antes ela mesmo mesma já tinha rompido em movimento, o rojão de suas partes se sucedendo: crente que a gente já estava no meio da festa festejada. Amanhã, raiava o diazinho, a festa recomeçava mais... Mas, então, o lucro seria de não esperdiçar a espertina destas pequenas horas, e deixar de ouvir aquelas estórias ― o vago de palavras, o sabido de não existido, invenções. Tomar a ocasião para presumir os benefícios do serviço do campo, o negócio de sempre. A boiada que ia sair. À Santa-Lua. Não, não carecia. Deixava para depois, quando a festa estiasse. Aí, resolvia. Ah, não tinha preguiça de si ― mas também não assumia receio de ninguém! Era homem de ponto. Só o trunfo de rebentar as durezas ― não pedia retreta de vadiação. Agora mesmo, não era por querido querer que estava ali escutando as estórias. Mais essas vinham, por si, feito no avanço do chapadão o menor vento brisêia. A bem ele tinha decidido o cálculo de botar o pé jazendo na cama, ali, para ajudar que o machucado melhorasse. Se não, estaria em pé, sobre-rondando, vigiando o povo todo se acomodar. Só que o sono se arregaçava. Se furtivava o sono, e no lugar dele manavam as negaças de voz daquela mulher Joana Xaviel, o urdume das estórias. As estórias ― tinham amarugem e docice. A gente escutava , se esquecia de coisas que não sabia.


João Guimarães Rosa
Uma Estória de Amor
(Festa de Manuelzão)
em Corpo de Baile, 1º vol.
José Olympio. Rio de Janeiro.
1ª edição. 1956.