Apoiava brandamente minhas
faces contra as belas faces do travesseiro que, cheias e frescas, são como as
faces de nossa infância. Riscava um fósforo para olhar o relógio. Em breve
seria meia-noite. É esse o instante em que o enfermo obrigado a partir, e que
teve de pousar em um hotel desconhecido, desperto por uma crise, alegra-se ao
perceber debaixo da porta uma raia de luz. Que ventura! Já é dia! Dentro em
pouco os criados se levantarão, poderá chamá-los, virão prestar-lhe socorro. A
esperança de ser aliviado lhe dá ânimo para sofrer. Agora mesmo julgou ouvir
passos; os passos se aproximam, depois se afastam. E a raia de luz que estava
sob a porta desapareceu. É meia-noite; acabam de apagar o gás; o último criado
partiu, e será preciso ficar toda a noite a sofrer sem remédio.
Marcel Proust
em busca do tempo perdido
volume I
no caminho de swann
tradução de mário quintana
Globo. São Paulo, SP. 3ª edição. 5ª reimpressão.
2009.