domingo, 10 de novembro de 2013

OTELO E SANT'IAGO


DE MÃE E DE SERVO

José Dias tratava-me com extremos de mãe e atenções de servo. A primeira cousa que conseguiu logo que comecei a andar fóra, foi  dispensar-me o pagem; fez-se pagem, ia commigo á rua. Cuidava dos meus arranjos em casa, dos meus livros, dos meus sapatos, da minha hygiene e da minha prosodia. Aos oito annos os meus pluraes careciam, alguma vez, da desinencia exacta, elle a corrigia, meio serio para dar autoridade á licção, meio risonho para obter o perdão da emenda. Ajudava assim o mestre de primeiras lettras. Mais tarde, quando o padre Cabral me ensinava latim, doutrina e historia sagrada, elle assistia ás licções, fazia reflexões ecclesiasticas, e, no fim, perguntava ao padre: “Não é verdade que o nosso jovem amigo caminha depressa?” Chamava-me “um prodigio”; dizia a minha mãe ter conhecido outr’ora meninos muito intelligentes, mas que eu excedia a todos esses, sem contar que, para a minha edade, possuia já certo numero de qualidades moraes solidas. Eu, posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio, gostava do elogio; era um elogio.


Machado de Assis
Dom Casmurro
H. Garnier, Livreiro-Editor.
Rio de Janeiro / Pariz.
1ª edição.