domingo, 10 de novembro de 2013

FRIEIRO


5 de janeiro

Uma fita de Lubitsch é sempre de uma classe fora do comum. Mesmo quando se trata de uma farsa, como a de ontem, no Brasil: Ser ou não Ser, engraçadíssima, com Jack Benny e Carole Lombard nos principais papéis. E lembrar-se a gente que a loura Carole morreu há mas de ano, num desastre de avião!

7 de janeiro

Meu sogro convolou a segundas núpcias aos cinqüenta e seis anos de idade, e antes do primeiro ano de casado já era pais de um garoto. A mulher está para lhe dar outro. Quer dizer que marcará breve dois tentos, com menos de três anos de casado. Eu, com quase oito, zero no placard.

Nem eu nem minha mulher desejamos filhos. Se viessem, muito bem. Não vindo, muito melhor.

Não sinto nenhuma gana de que meu nome se perpetue no mundo. Neste ponto sou como Montaigne que também não tinha ânsias de ver perpetuada a sua estirpe. E como o filósofo, consolo-me facilmente com o que acontecerá no mundo depois do meu desaparecimento.

Não há perigo: o mundo não acabará por falta de padreadores e criadeiras. Malthus jamais gozou de qualquer crédito.

9 de janeiro

O cinematógrafo, entre todas as artes, é o que tem origens mais prosaicas: é filho do Capital e da Máquina. Entretanto, a esses dois elementos geradores vieram juntar-se Poesia e Fantasia, sem os quais não se pode falar de obra de arte.

10 de janeiro ― Jaculatória do dia: “E quem não queira morrer de sede entre os homens, deve aprender a beber em todos os copos, e quem queira conservar-se puro entre os homens deve aprender a lavar-se com água suja.” Nietzsche.


Eduardo Frieiro
Novo Diário
Itatiaia. Belo Horizonte.
1986.