5 de janeiro
Uma fita de Lubitsch é sempre
de uma classe fora do comum. Mesmo quando se trata de uma farsa, como a de
ontem, no Brasil: Ser ou não Ser, engraçadíssima,
com Jack Benny e Carole Lombard nos principais papéis. E lembrar-se a gente que
a loura Carole morreu há mas de ano, num desastre de avião!
7 de janeiro
Meu sogro convolou a
segundas núpcias aos cinqüenta e seis anos de idade, e antes do primeiro ano de
casado já era pais de um garoto. A mulher está para lhe dar outro. Quer dizer
que marcará breve dois tentos, com menos de três anos de casado. Eu, com quase
oito, zero no placard.
Nem eu nem minha mulher
desejamos filhos. Se viessem, muito bem. Não vindo, muito melhor.
Não sinto nenhuma gana de
que meu nome se perpetue no mundo. Neste ponto sou como Montaigne que também
não tinha ânsias de ver perpetuada a sua estirpe. E como o filósofo, consolo-me
facilmente com o que acontecerá no mundo depois do meu desaparecimento.
Não há perigo: o mundo não
acabará por falta de padreadores e criadeiras. Malthus jamais gozou de qualquer
crédito.
9 de janeiro
O cinematógrafo, entre todas
as artes, é o que tem origens mais prosaicas: é filho do Capital e da Máquina.
Entretanto, a esses dois elementos geradores vieram juntar-se Poesia e
Fantasia, sem os quais não se pode falar de obra de arte.
10 de janeiro ― Jaculatória
do dia: “E quem não queira morrer de sede entre os homens, deve aprender a
beber em todos os copos, e quem queira conservar-se puro entre os homens deve
aprender a lavar-se com água suja.” Nietzsche.
Eduardo Frieiro
Novo Diário
Itatiaia. Belo Horizonte.
1986.