Joana
Xaviel fogueava um entusiasmo. Uma valia, que ninguém governava, tomava conta
dela, às tantas. O velho rei segurava a barba, as mãos cheias de brilhantes em
ouro de anéis; o príncipe amava a moça, recitava carinhos, bramava e suspirava;
a rainha fiava na roca ou rezava o rosário; o trape-zape das espadas dos
guerreiros se danava no ar, diante: a gente via o florear das quartadas, que
tiniam, esfaiscavam; ouvir todos cantarem suas passagens, som de voz de um e
um. Joana Xaviel virava outra. No clarão da lamparina, tinha hora em que ela
estava vestida de ricos trajes, a cara demudava, desatava os traços, antecipava
as belezas, ficava semblante. Homem se distraía, airado, do abarcável do vulto
― dela aquela: que era uma capioa barranqueira, grossa roxa, demão um ressalto
de papo no pescoço, mulher praceada nos quarenta, às todas unhas, sem trato.
Mas que ardia ardor, se fazia. Os olhos tiravam mais, sortiam sujos brilhos,
enviavam.
Se
somava que a Joana Xaviel tinha vindo para a festa. Sonsa entrava ali, no
relento da cozinha, com Leonísia e umas das mulheres de vaqueiros, ensinando as
estórias. Retornadas da procissão e da reza na Capela, essas não podiam ir
dormir, aguardavam que o padre apagasse a luz do quarto-da-sala. De lá, depois
do portal do corredor, o padre não alcançava escutar. Nem o senhor do Vilamão,
noutro cômodo, com seus dois camaradas de fiança, que dele cuidavam. Nem seo
Vevelho e os filhos, dormindo na sala. Ouvia-as Manuelzão, já deitado, aqui,
atrás de parede, quase encostado na cozinha. Não conseguia pegar no sono.
Sus,
sus, no vão entre duas estórias, Joana Xaviel se arapuava, questionando o caso
dum veredeiro, que queria vergonha com ela e, escopado, sem os favores ― somenos
segundo ela dizia ― saíra por meia redondeza a difamá-la a mal. Morreu, sobre o
depois, sua alma veio assombrar. Mesmo agora a ira de Joana Xaviel não se
fingia. A mais, vibrava em seu falar, que se expedia num resoluto:
―
“...Ele me fez muito falso. Morreu e veio me representar. Veio andando de
quatro patas... Que todos me oiçam! Que todos me oiçam! P’r’ amò-de perdão...
Mediato, veio logo me ver. Por conta dele, eu tinha contravindo de sair de
minha casa. Onça comeu porca, leitãozinho morreu de fome... Enquanto eu tiver
raiva, eu não perdôo! Eu? Não perdôo. Por qual razão que eu destravei com ele.
Aquele homem, quando vivo, sabia rezas pesadas. Três dias despois de morto,
apareceu. Era a alma dele. Eu não tive medo nenhum, tive foi mais raiva... A
cachorrinha é que ficou uinvando. Ficou assombrada. A mesmo despois que a
visonha daquilo tornou a se desaparecer, a cachorrinha não teve paz. Ela não
podia olhar a luz da candeia, não queria de jeito nenhum virar a cara para a
banda do fogo na fornalha...”
João
Guimarães Rosa
Uma
Estória de Amor
(Festa
de Manuelzão)
Corpo
de Baile (7 novelas) I
José
Olympio. Rio de Janeiro.
1ª
edição. 1956.