DEPOIMENTO
DE BASÍLIO DE BRITO (CONT.)
E
estando ele, testemunha, em outra ocasião com o filho do dito Guarda-Mor, em
uma das lojas que ficam por baixo das casas do Contratador João Rodrigues de
Macedo, achando-se ali o dito Alferes Joaquim José e mais outros de que não tem
certa lembrança, tirou aquele Alferes da algibeira uma grande lista, ou para
melhor dizer, mapa de todos os habitantes desta Capitania de ambos os sexos e
todas as classes, cujo número montava ao pé de quatrocentas mil almas e,
mostrando-a, o dito Alferes proferiu estas palavras: “Ora, aqui têm Vossas
Mercês todo esse povo açoitado por um só homem; e nós todos a chorarmos como
negros: ai, ai! E de três em três anos vem um e leva um milhão, e os criados
levam outro tanto; e como hão de passar os pobres filhos da América? Se fosse
outra nação já se tinha levantado.” Ao que respondeu o dito bacharel das
Congonhas: “Vossa Mercê fala assim em levante? Se fosse em Portugal, Deus nos
livre que tal se soubesse.” Ao que o dito Alferes respondeu cheio de paixão:
“Não diga levantar; é restaurar!, repetindo umas poucas de vezes estas
palavras, que ele, testemunha, ouviu perfeitamente; e também quando ele,
testemunha, veio do Serro a visitar o Excelentíssimo Senhor Visconde, depois de
sua chegada a esta Vila com a Excelentíssima Senhora Viscondessa, tinha
encontrado no caminho a um inglês por nome Nicolau Jorge, que o Doutor Luís
Beltrão, Fiscal dos Diamantes, trouxe consigo de Lisboa; e dizendo ele,
testemunha, em Vila Rica, ao Capitão Vicente Vieira da Mota, caixeiro de João
Rodrigues de Macedo, que tinha encontrado em caminho com aquele inglês que Luís
Beltrão tinha levado consigo para o Tejuco, este lhe respondeu: “Pois vai lá
uma boa fazenda. Andava por aqui falando em que o Brasil podia fazer como a
América Inglesa”. E que o mesmo inglês perguntara a ele, Mota, por estas
palavras: “Vossa Mercê, se os nacionais do Brasil fizerem uma República, qual
partido há de seguir? O de realista, ou o de republicano?” Ao que o dito
Vicente Vieira lhe respondeu que sempre havia de ser pelo seu Rei; também ele,
testemunha, se lembra bem que, conversando em outra ocasião com o já referido
Doutor Cláudio sobre o Excelentíssimo Senhor Visconde, lhe disse aquele Doutor
estas misteriosas palavras: “Fez bem trazer a mulher e os filhos; que se os não
trouxesse...”
Também
em diferente ocasião, ouviu ele testemunha ao Cônego Luís Vieira, à porta das
casas de João Rodrigues de Macedo, vindo dito cônego do Campo e, ao apear-se,
perguntando-lhe ele, testemunha, por novidades: “Que se tinha apanhado um
parada de Sua Excelência, que o mandava para o Rio de Janeiro; e que se dizia,
lá por fora, que o Governador havia tirado do cofre quarenta mil cruzados, que
eram o soldo de três anos, e que os tinha mandado para Portugal; isto mesmo
ouviu ele, testemunha, muitas vezes ao Coronel Inácio José de Alvarenga, e o
mesmo ouviu também ao Capitão Vicente Vieira da Mota; cujas imposturas bem se
persuade ele, testemunha, que eram unicamente proferidas e espalhadas para
atear mais a revolução cogitada, e odiar o dito Excelentíssimo Senhor Visconde
com os povos, como faziam a respeito de ter instrução para não deixar engrossar
em cabedais os filhos deste continente mais que até dez mil cruzados, como já
referiu.
Câmara
dos Deputados. Governo do Estado de Minas Gerais.
Autos
de Devassa da Inconfidência Mineira.
Brasília
/ Belo Horizonte. 1976.