A Igreja Romana confessa, numa velha oração, clássica, a
“Salve Regina”, que isto aqui é um vale de lágrimas, “in hac lacrimarum valle”
(o contexto, que denuncia fortemente a presença do mal no mundo, é “ad te
clamamus, exsules filii Hevae, ad te suspiramus gementes et flentes in hac
lacrimarum valle”, além, de mais abaixo, o texto registrar novamente a idéia do exílio: “nobis
post hoc exsilium ostende”). É por isto que, ao contrário da imensa maioria,
pelo menos aparentemente, não creio que este mundo tenha sido criado por um pai
misericordioso e benévolo. Estou mais para acreditar que, havendo um criador e
regedor da imensidão inimaginável do Cosmos, ou mesmo só deste grãozinho de
poeira, (haja hipérbole), perdido nos confins da Via Láctea, não é um espírito
de luz, mas um demônio maligno, cruel, perverso.
A lógica sobre a qual está montado este mundo é a da morte,
ou seja, a do nada. À noite, na floresta, é uma mortandade, o sangue corre como
um rio de grande caudal, lembra uma escritora judaico-brasileira.
O macho chorou e ainda chora, desesperado. Pela manhã ele
estava no chão, perto dela, tentando reanimá-la. Subiu, mas depois voltou para
chorá-la, em desespero, repito. Depois de envolvê-la num sudário, nós a
enterramos num dos vasos grandes da varanda. E fomos, logo que possível, buscar
uma outra fêmea, amarela como a primeira. Ele, curioso, buscou logo conhecê-la,
se aproximando do viveiro de quarentena em que a colocamos. Ficou feliz, e não
ficou, porque, aparentemente, percebeu que era outra fêmea, não sua antiga
companheira, que, hoje cedo, vira, espantosamente, inanimada.
Só mesmo buscando o consolo da Poesia:
MOMENTO NUM CAFÉ
Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam a morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes da vida.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma
agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
Manuel Bandeira
Estrela da Manhã