segunda-feira, 7 de outubro de 2013

MINHA CALOPSITA FÊMEA MORREU


A Igreja Romana confessa, numa velha oração, clássica, a “Salve Regina”, que isto aqui é um vale de lágrimas, “in hac lacrimarum valle” (o contexto, que denuncia fortemente a presença do mal no mundo, é “ad te clamamus, exsules filii Hevae, ad te suspiramus gementes et flentes in hac lacrimarum valle”, além, de mais abaixo, o texto registrar novamente a idéia do exílio: “nobis post hoc exsilium ostende”). É por isto que, ao contrário da imensa maioria, pelo menos aparentemente, não creio que este mundo tenha sido criado por um pai misericordioso e benévolo. Estou mais para acreditar que, havendo um criador e regedor da imensidão inimaginável do Cosmos, ou mesmo só deste grãozinho de poeira, (haja hipérbole), perdido nos confins da Via Láctea, não é um espírito de luz, mas um demônio maligno, cruel, perverso.

A lógica sobre a qual está montado este mundo é a da morte, ou seja, a do nada. À noite, na floresta, é uma mortandade, o sangue corre como um rio de grande caudal, lembra uma escritora judaico-brasileira.

O macho chorou e ainda chora, desesperado. Pela manhã ele estava no chão, perto dela, tentando reanimá-la. Subiu, mas depois voltou para chorá-la, em desespero, repito. Depois de envolvê-la num sudário, nós a enterramos num dos vasos grandes da varanda. E fomos, logo que possível, buscar uma outra fêmea, amarela como a primeira. Ele, curioso, buscou logo conhecê-la, se aproximando do viveiro de quarentena em que a colocamos. Ficou feliz, e não ficou, porque, aparentemente, percebeu que era outra fêmea, não sua antiga companheira, que, hoje cedo, vira, espantosamente, inanimada.

Só mesmo buscando o consolo da Poesia:

MOMENTO NUM CAFÉ

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam a morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes da vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.


Manuel Bandeira

Estrela da Manhã