Saímos,
reembarcamos, outra vez nos largamos pelas ruas estreitas e sombrias. Segunda
parada e mergulhamos num casarão, subimos e descemos numerosos degraus de
cimento, dobramos esquinas, fomos acordar o sujeito que dormia num quarto
pequeno situado no fim de um alpendre. Levantou-se bocejando, a cara
enferrujada. E travou-se um diálogo de que nada consegui entender. Expressões
técnicas soavam inutilmente, pessoas agora esquecidas por inteiro entravam,
saíam, colaboravam na conversa, e, não me sendo possível distinguir a posição
social delas, ordens e evasivas se confundiam, para diferençá-las havia apenas
tom, o gesto, a postura humilde ou arrogante.
Na
verdade me achava num mundo bem estranho. Um quartel. Não podia arrogar-me
inteira ignorância dos quartéis, até então eles me haviam surgido nas relações
com o exterior, esforçando-se por adaptar os modos e a linguagem que usávamos
lá fora. Aparecia-me de chofre interiormente, indefinido, com seu rígido
simbolismo, um quadro de valores que me era impossível recusar, aceitar,
compreender ao menos. Tinha-me livrado em poucos meses do serviço militar, numa
linha de tiro, sem nenhum patriotismo, apenas interessado na ginástica.
Habituara-me cedo a considerar o exército uma inutilidade. Pior: uma
organização maléfica. Lembrava-me dos conquistadores antigos, brutos, bandidos,
associava-os aos generais modernos, bons homens, excelentes pais de família, em
todo o caso brutos e bandidos teóricos, mergulhados numa burocracia heróica e
dispendiosa. Mais tarde, numa prefeitura da roça, percebera que os melhores
trabalhadores, os mais capazes, tinham sido soldados ― e aquele ninho de
parasitas se revelara incongruente. Uma idéia preconcebida, rigorosa, esbarrava
com a observação. Nada mais besta que as generalizações precipitadas. A
antipatia que os militares me inspiravam com certeza provinha de nos
separarmos. Eu achava as fórrmulas deles, os horríveis lugares-comuns, paradas,
botões, ordens do dia e toques de corneta uma chatice arrepiadora; se algum
deles atentasse nas minhas ocupações, provavelmente as julgaria bem mesquinhas.
Das frases rápidas e
obscuras, das idas e vindas, percebi vagamente que também ali não havia lugar
para nós. Isto me espantava. Como era possível em tão grande estabelecimento
não haver cela onde se alojassem dois indivíduos? Não
se tratava disso, foi o que me pareceu: não se procurava uma cela, mas uma
determinada espécie de cela. No papel que nos dava ingresso estávamos
classificados , etiquetados, e só nos poderíamos recolher a local previamente
estabelecido. Perplexo, perguntava a mim mesmo se esse rigorismo nos seria
vantajoso ou desvantajoso. Não me seria possível recordar as feições do homem
que se levantara, bocejando estremunhado. Certamente o vi nos dias seguintes,
mas confundi-o com outros, não consegui identificá-lo. Recordo-me, porém, de um
pormenor desprezível, o sentimento desarrazoado que me assaltou ao vê-lo
chateado, indeciso a respeito do ponto onde nos devia guardar: acusei-me, não
de tentar subverter a ordem, mas de perturbar o sono de um desconhecido.
Evidentemente isso era
estúpido ― e reconhecendo a estupidez,
continuava a censurar-me, tinha desejo de me desculpar, livrar-me do enleio
absurdo. Enfim, ao cabo de meia hora, venceu-se a dificuldade: o homem resolveu
ceder-nos aquele aposento e mudar-se: mandou buscar outra cama e saiu depois de
nos fazer algumas advertências incompreensíveis. O moço que nos acompanhara
despediu-se também.
― Obrigado, tenente.
― Não senhor, sou apenas
sargento.
― Perdão. Com essa luz tão
fraca, difícil notar.
Aleguei a falta de luz como
alegaria outra coisa qualquer, pois de fato, ignorante de uniformes, nem
procurara distinguir o posto do rapaz. Imaginara-o tenente ― e surpreendia-me
que houvesse inferiores tão bem-educados. Julgava-os ásperos, severos,
carrancudos, possuidores de horríveis pulmões fortes demais, desenvolvidos em
berros a recrutas, nos exercícios. E aquele, amável, discreto, de aprumo perfeito
e roupa sem dobras, realmente me desorientava. Surpresa tola, por causa das
generalizações apressadas.
Graciliano Ramos
Memórias do Cárcere
1º volume – (obra póstuma)
José Olympio. Rio de Janeiro.
1ª edição. 1953.