domingo, 6 de outubro de 2013

G. RAMOS


Saímos, reembarcamos, outra vez nos largamos pelas ruas estreitas e sombrias. Segunda parada e mergulhamos num casarão, subimos e descemos numerosos degraus de cimento, dobramos esquinas, fomos acordar o sujeito que dormia num quarto pequeno situado no fim de um alpendre. Levantou-se bocejando, a cara enferrujada. E travou-se um diálogo de que nada consegui entender. Expressões técnicas soavam inutilmente, pessoas agora esquecidas por inteiro entravam, saíam, colaboravam na conversa, e, não me sendo possível distinguir a posição social delas, ordens e evasivas se confundiam, para diferençá-las havia apenas tom, o gesto, a postura humilde ou arrogante.

Na verdade me achava num mundo bem estranho. Um quartel. Não podia arrogar-me inteira ignorância dos quartéis, até então eles me haviam surgido nas relações com o exterior, esforçando-se por adaptar os modos e a linguagem que usávamos lá fora. Aparecia-me de chofre interiormente, indefinido, com seu rígido simbolismo, um quadro de valores que me era impossível recusar, aceitar, compreender ao menos. Tinha-me livrado em poucos meses do serviço militar, numa linha de tiro, sem nenhum patriotismo, apenas interessado na ginástica. Habituara-me cedo a considerar o exército uma inutilidade. Pior: uma organização maléfica. Lembrava-me dos conquistadores antigos, brutos, bandidos, associava-os aos generais modernos, bons homens, excelentes pais de família, em todo o caso brutos e bandidos teóricos, mergulhados numa burocracia heróica e dispendiosa. Mais tarde, numa prefeitura da roça, percebera que os melhores trabalhadores, os mais capazes, tinham sido soldados ― e aquele ninho de parasitas se revelara incongruente. Uma idéia preconcebida, rigorosa, esbarrava com a observação. Nada mais besta que as generalizações precipitadas. A antipatia que os militares me inspiravam com certeza provinha de nos separarmos. Eu achava as fórrmulas deles, os horríveis lugares-comuns, paradas, botões, ordens do dia e toques de corneta uma chatice arrepiadora; se algum deles atentasse nas minhas ocupações, provavelmente as julgaria bem mesquinhas.

Das frases rápidas e obscuras, das idas e vindas, percebi vagamente que também ali não havia lugar para nós. Isto me espantava. Como era possível em tão grande estabelecimento não haver cela onde se alojassem dois indivíduos? Não se tratava disso, foi o que me pareceu: não se procurava uma cela, mas uma determinada espécie de cela. No papel que nos dava ingresso estávamos classificados , etiquetados, e só nos poderíamos recolher a local previamente estabelecido. Perplexo, perguntava a mim mesmo se esse rigorismo nos seria vantajoso ou desvantajoso. Não me seria possível recordar as feições do homem que se levantara, bocejando estremunhado. Certamente o vi nos dias seguintes, mas confundi-o com outros, não consegui identificá-lo. Recordo-me, porém, de um pormenor desprezível, o sentimento desarrazoado que me assaltou ao vê-lo chateado, indeciso a respeito do ponto onde nos devia guardar: acusei-me, não de tentar subverter a ordem, mas de perturbar o sono de um desconhecido.
Evidentemente isso era estúpido ― e reconhecendo a estupidez, continuava a censurar-me, tinha desejo de me desculpar, livrar-me do enleio absurdo. Enfim, ao cabo de meia hora, venceu-se a dificuldade: o homem resolveu ceder-nos aquele aposento e mudar-se: mandou buscar outra cama e saiu depois de nos fazer algumas advertências incompreensíveis. O moço que nos acompanhara despediu-se também.

― Obrigado, tenente.

― Não senhor, sou apenas sargento.

― Perdão. Com essa luz tão fraca, difícil notar.

Aleguei a falta de luz como alegaria outra coisa qualquer, pois de fato, ignorante de uniformes, nem procurara distinguir o posto do rapaz. Imaginara-o tenente ― e surpreendia-me que houvesse inferiores tão bem-educados. Julgava-os ásperos, severos, carrancudos, possuidores de horríveis pulmões fortes demais, desenvolvidos em berros a recrutas, nos exercícios. E aquele, amável, discreto, de aprumo perfeito e roupa sem dobras, realmente me desorientava. Surpresa tola, por causa das generalizações apressadas.


Graciliano Ramos
Memórias do Cárcere
1º volume – (obra póstuma)
José Olympio. Rio de Janeiro.

1ª edição. 1953.