Testemunha
3ª
Basílio de Brito Malheiro do Lago, Tenente-Coronel do Primeiro Regimento de Cavalaria de
Paracatu, natural da Vila de Ponte de Lima, Comarca de Viana, Arcebispado de
Braga, morador nas suas lavras do Palmital, Comarca do Serro do Frio, que vive
das suas fazendas, de idade de quarenta e seis anos, testemunha a quem o dito
Ministro deferiu o juramento dos Santos Evangelhos em um livro deles, em que
pôs sua mão direita, subcargo do qual lhe encarregou jurasse a verdade do que
soubesse e lhe fosse perguntado, o que assim prometeu fazer como lhe estava
encarregado.
E
perguntado pelo conteúdo no Auto desta Devassa, disse que, achando-se nesta
Vila Rica há mais de sete meses, onde veio a dependências de sua casa, logo
passado um mês que nela residia, chegou à mesma Manuel Antônio de Morais,
morador nas Congonhas de Cima, na Comarca do Serro do Frio, que estava
arranchado em casa do Sargento-Mor José Joaquim da Rocha, onde ele testemunha
foi bastantes vezes visitá-lo; e em algumas encontrou na mesma casa o Alferes
do Regimento de Cavalaria Paga Joaquim José da Silva Xavier, o qual,
queixando-se algumas vezes do governo do Excelentíssimo Senhor Visconde
General, dando entre outros motivos o do mesmo Senhor lhe mandar entregar uma
precatória que tinha vindo do Rio das Mortes contra ele, a qual tinha detido em
si sem a querer entregar ao oficial que lha apresentara, assim como de prestar
licença para o dito ser citado, e outras coisas desta qualidade; e vendo que
nem ele, testemunha, nem os mais que o escutavam, lhe davam razão ou aprovavam
as suas imposturas, começou a dizer que o mesmo Excelentíssimo Senhor Visconde
trazia instrução particular do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Martinho de
Melo e Castro, para não deixar que os homens destas Minas medrassem seus
cabedais; e que, pelo considerar a quase todos abastados e poderosos, vinha de
acordo a não consentir que tivessem de seu mais de dez mil cruzados, e que
sucedendo não poder reduzir a algum a estes precisos termos, quando se não
oferecesse outro pretexto, sempre o arruinasse argüindo-o de inconfidente,
remetendo-o preso para o Reino; cujas imposturas davam bem a conhecer, como
ele, testemunha, se persuadiu que a intenção do dito Alferes tinha unicamente
por objeto o odiar o referido Senhor Visconde General com os povos desta
Capitania para os premeditados fins que se propunha; e respondendo-lhe ele,
testemunha, que falasse mais cautelosamente a respeito dos Governadores, e que
sem eles se não podiam reger estas terras, lhe tornara o sobredito Alferes por
formais palavras: “Ah, que se todos fossem do meu ânimo! Mas lá está a mão de
Deus.”
E
passando ele, testemunha, daí a poucos dias, pela porta do dito Rocha onde se
hospedara aquele Morais, vindo este a sair, chamou a ele, testemunha, e depois
de conversarem algumas coisas insignificantes, lhe disse então: “Você sabe que
o Alferes Joaquim José anda morto por fazer um levante para o qual anda
convidando a todos?”Ao que ele, testemunha, respondeu que em tais coisas se não
devia falar; e logo se despediu e retirou, porque já estava com alguma
desconfiança pelas desenvolturas que tinha ouvido ao dito Alferes. Daí a poucos
dias, topando ele, testemunha, com o Doutor João de Araújo, morador no Rio das
Mortes, com quem tem alguma amizade, também este em parte se queixou do
Excelentíssimo Senhor Visconde por lhe mandar ajustar; e dizendo-lhe ele,
testemunha, o mesmo que já tinha repetido àquele Alferes, que se não devia
falar dos Governadores, lhe tornou aquele, por duas ou três vezes, que este
havia de ser o Governador mais infeliz que tinha cá vindo; e perguntando-lhe
por que, o não satisfez com razão alguma; e lhe parece a ele, testemunha, que
quando isto assim sucedeu, estava também presente o Doutor José Soares de
Castro; cujo sucesso confirmou mais a ele, testemunha, que a intenção do
Alferes Joaquim José estava já bem conhecida, vulgarizando-se até às pessoas da
última plebe que estava para haver um levante nas Minas; de tal sorte que,
entrando ele testemunha em uma noite pela estalagem das Cabeças, de José
Fernandes, onde reside, logo na sala em que se achavam mais pessoas, lhe disse
um José Joaquim de Oliveira, que viera do Rio das Mortes assentar praça nesta
Capital, onde ainda se acha: “Sabe que mais, Senhor Tenente-Coronel? Aqui
disseram hoje que estava para haver um levante nas Minas.” E como ele,
testemunha, conheceu a singeleza com que o dito moço lhe contava em público
semelhante novidade, lhe respondeu unicamente: “Só se for de prostitutas.” E
logo foi andando e recolhendo-se para o seu quarto.
Autos
de Devassa da Inconfidência Mineira
Câmara
dos Deputados / Governo do Estado de Minas Gerais.
Brasília
/ Belo Horizonte. 1976.