DE
OLHOS MÍOPES E MÁGICOS
Despertou-me
cedo a curiosidade para as coisas da política.
Lembro-me
de que, aos nove anos de idade, passei toda uma semana de expectativa: não
sabia qual candidato à Presidência da República seria lançado pelo Partido
Comunista... Por esses tempos era eu, ao menos afetivamente, um jovem camarada
de calças curtas e leitor assíduo da extinta “Imprensa Popular””.
Exultei
também antes dos dez anos, quando, acompanhando meu padrasto, fui a Nova Lima
ver aquele que chamavam de O Cavaleiro da Esperança e assisti, com os olhos
mágicos da infância, ao primeiro comício de minha vida, realizado aqui nesta
cidade, na Praça da Estação, e em que falou o (então, ― dizem...) líder
vermelho.
Foram
estes olhos míticos da infância que se extasiaram com o interior de uma sede
política, com seus enormes cartazes coloridos jogados pelo chão, folhetos,
panfletos, latas de tinta, retratos de heróis...
Menino,
eu conheci bem as faces de Pedro Pomar, de João Amazonas e de Maurício Grabois.
Como conheci o estranho e revolucionário cocuruto plantado no alto do coco de
um deputado negro, o Sr. Claudino José da Silva.
Foi
assim que lutei, interiormente, pelas vitórias de Yedo Fiúza, de Mílton Campos e
de Antônio Vasconcelos, que foram, outrora, candidatos dos comunistas, e,
portanto, comunistas, a julgar pela lógica de eminente figura...
Psicologicamente,
fui um revolucionário de calças curtas, que jogava bolinhas de gude e
colecionava figurinhas.
Mas
sossegue-se o olhinho, míope e caolho segundo alguns, da polícia política. A
minha política, naquela época, era uma política mágica e quase celestial. E
atualmente, ah, agora, quando o sol do dia me atravessa como um dardo, o que eu
sou agora é um poeta que sonha com um novo mundo, contudo diferente do sonhado
pela estupidez dos camisas verdes, bem como do louvado, em prosa e verso, pela
religião vermelha.
em Revezamento,
seção do Diário da Tarde
BH, 18/07/60