sábado, 9 de novembro de 2013

UM APRENDIZ DE FEITICEIRO


DE OLHOS MÍOPES E MÁGICOS

Despertou-me cedo a curiosidade para as coisas da política.

Lembro-me de que, aos nove anos de idade, passei toda uma semana de expectativa: não sabia qual candidato à Presidência da República seria lançado pelo Partido Comunista... Por esses tempos era eu, ao menos afetivamente, um jovem camarada de calças curtas e leitor assíduo da extinta “Imprensa Popular””.

Exultei também antes dos dez anos, quando, acompanhando meu padrasto, fui a Nova Lima ver aquele que chamavam de O Cavaleiro da Esperança e assisti, com os olhos mágicos da infância, ao primeiro comício de minha vida, realizado aqui nesta cidade, na Praça da Estação, e em que falou o (então, ― dizem...) líder vermelho.

Foram estes olhos míticos da infância que se extasiaram com o interior de uma sede política, com seus enormes cartazes coloridos jogados pelo chão, folhetos, panfletos, latas de tinta, retratos de heróis...

Menino, eu conheci bem as faces de Pedro Pomar, de João Amazonas e de Maurício Grabois. Como conheci o estranho e revolucionário cocuruto plantado no alto do coco de um deputado negro, o Sr. Claudino José da Silva.

Foi assim que lutei, interiormente, pelas vitórias de Yedo Fiúza, de Mílton Campos e de Antônio Vasconcelos, que foram, outrora, candidatos dos comunistas, e, portanto, comunistas, a julgar pela lógica de eminente figura...

Psicologicamente, fui um revolucionário de calças curtas, que jogava bolinhas de gude e colecionava figurinhas.

Mas sossegue-se o olhinho, míope e caolho segundo alguns, da polícia política. A minha política, naquela época, era uma política mágica e quase celestial. E atualmente, ah, agora, quando o sol do dia me atravessa como um dardo, o que eu sou agora é um poeta que sonha com um novo mundo, contudo diferente do sonhado pela estupidez dos camisas verdes, bem como do louvado, em prosa e verso, pela religião vermelha.  


em Revezamento,
seção do Diário da Tarde
BH, 18/07/60